Nada mais se cria? Tudo se copia?

Tempos em que o capital criativo de incontáveis marcas tirou férias ou se configura como a popularização de tendências?


Pois é, Vanessa Guerra ocupou um triplex na minha cabeça quando questionou se a moda havia virado um "copia & cola". Tô a alguns dias aqui pensando sobre e gostaria de compartilhar com vocês - e consequentemente alugar meu little triplex na sua cabeça também hahaahahah!


Se você fizer uma busca rápida no Google pelo termo "bota sola verde" vai se deparar com incontáveis ofertas de botas em suma iguais (quando não idênticas, tá?) porém de marcas diferentes. A trend foi lançada pela label Bottega Veneta e se tornou um produto-desejo para a galera.

Como o preço da Bottega não é nada popular - sim, a marca é de luxo - apenas uma pequena parte da população tem acesso aos seus lançamentos, deixando assim a maioria em peso desejosa pelo produto porém sem cash pra comprá-lo. Aqui entram as marcas mais populares, "re-criando" o modelo desejado e tornando-o possível para a maior parcela da população.


Esse fenômeno aconteceu com a Bota Chelsea de sola colorida, com a Bolsa tote Jodie (a famosa pelo nó!), com a Bolsa Cassete (famosa pelas tramas grossas com aspecto de almofada), com a sandália de bico quadrado e tantas outras criações da marca. Primeiro, logo assim que lançados os produtos causam estranheza. Logo assim que pessoas importantes são clicadas usando o público começa a considerar as peças lindas até que a tornam ícones... Vou problematizar em duas etapas, ok?

Etapa 1: Moda inacessível x Desejo por status

O desejo que o público tem por algo é construído na cabeça dele, através de branding, marketing e outras ferramentas. O mercado de luxo normalmente lança as tendências (mesmo que não as crie, ele é famoso por lançá-las) e na sequência as marcas que conversam com a maior parte da população vem como um efeito dominó reproduzindo a tendência a ponto dela ser comprada pela maior parte da população que gostou, com um timing de atraso pensado para medir a temperatura da aceitação do lançamento do produto original, reproduzí-lo de forma adaptada e lucrar de forma ampliada com essa reprodução.

Por essa linha de raciocínio, as marcas tornam possíveis os produtos que são financeiramente inacessíveis para a maioria das pessoas, pessoas essas que nem sempre estão em posição de consumo para comprar o original da marca que lançou a tendência, mas tem o desejo pelo status que aquele produto gera.

A pergunta que não quer calar é: temos comprado produtos porque realmente gostamos ou temos comprado produtos por status?


Etapa 2: Capital criativo x Essência da marca

Existem muitas coisas em risco na hora de pôr essa conta na ponta do lápis. Grande parte das marcas que se inspiram (aka leia reproduzem) produtos-ícones de marcas internacionais entraram em um flow onde precisam disso pra sobreviver. É preciso lembrar que estamos em um mercado capitalista e vender o que as pessoas já querem é infinitamente mais fácil e mais barato do que criar desejo / demanda no público. Quando digo que a conta precisa ser pensada é porque: 1) se o estilista se recusar a seguir essa linha de trabalho ele perde o emprego; 2) se a marca mudar repentinamente há grandes chances do público não compreendê-la e assim, falir. Nesse cenário, quem vai arriscar, né? Bom, novas marcas surgem às pencas todos os dias. Estamos no Brasil, celeiro de grandes criadores. Precisamos aqui ligar o alerta para olharmos para o mercado saturado dos mesmos produtos, das mesmas cores, das mesmas iniciativas e estampas e entender que já tem muita gente fazendo o mesmo, da mesma forma e da mesma configuração. Pra você que é creator, designer que tem a própria marca e tá na dúvida de como se portar: olhe para onde ninguém está olhando. Se inspire sim, mas não faça e nem se coloque na mesma posição que eles. Já existem muitas "solas verdes", quais solas serão as próximas queridinhas das pessoas? Porquê não criá-las? A essência da sua marca não pode ser refém de uma tendência ou do mercado internacional, ela precisa ser quem ela é, respeitar a própria identidade e não apenas ser a resposta dos desejos de pessoas famintas por status, mas ser a geradora de novas ideias e criar uma base de fãs, admiradores e clientes que vejam em você a sua própria identidade, sua própria essência e por isso consomem de você - e consomem a sola verde, se quiserem também.


Nem na teoria, nem na prática isso é fácil tá? Não tô te iludindo não... Mas vim dizer que não é impossível e saber disso já é 50% do caminho.

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