A FORÇA DAS FAVELAS

Como o empreendedorismo social contribuiu com as comunidades durante a pandemia e que lições podemos extrair para os nossos negócios?

Enfrentamos, e ainda o temos feito na verdade, um grande desafio desde 2020: a pandemia de Covid-19. Para frear o avanço do vírus, foram adotadas medidas sanitárias importantes, mas que impactaram grandemente a economia do mundo. No Brasil, mais especificamente nas favelas onde se encontram concentrados cerca de 13 milhões de pessoas, no ano de 2019 verificou-se por meio de pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva em parceria com Data Favela, que os moradores movimentam anualmente R$119,8 bilhões[1], um volume de renda superior a maioria dos estados brasileiros. Havia à época expectativas otimistas em relação à melhoria das condições de vida em diversos aspectos. Mas aí, veio a pandemia do coronavírus gerando danos sociais e econômicos para os moradores dessas comunidades. Houve um movimento migratório para o mundo virtual, porém nem todos puderam acompanhá-lo. Em pesquisa realizada pelo Programa de Pós-Graduação em Política Social (PPGPS) da Ufes, em parceria com o Instituto Locomotiva, atestou-se que houveram alguns empecilhos que impediram ou atrapalharam a adaptação à modalidade de negócio on-line. Na pesquisa, sete em cada dez entrevistados só tinham acesso à internet através de um plano pré-pago no smartphone, o que torna a conectividade e o acesso à rede mais restrito. Apenas 23% dos entrevistados conseguiram adaptar seus negócios ao novo mercado. Além dessas dificuldades, houve também impactos na saúde mental dos empreendedores. Quem consegue permanecer incólume diante de tanta notícia ruim: altos números de vítimas fatais, vacina que não chegava, sucessivos aumentos em itens essenciais (luz, gasolina, alimentos. Quem não se lembra que no ápice da pandemia não se comprava um saco de 5kg de arroz por menos de R$35?), o auxílio emergencial que não saiu pra todo mundo que precisava, falta de políticas públicas que atendessem às necessidades dos empreendedores... Enfim, era muita coisa jogando contra e isto fez com que muitos adoecessem.

Porém, como diria Nietzsche: “É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante”. E no meio de tantas incertezas, mais uma vez a criatividade de um povo que sobrevive a situações de escassez (seja de recursos ou atenção do Estado) e violência (seja literal ou simbólica) surpreende e cria alternativas que promovem a vida e sua continuidade. Assistimos inúmeras iniciativas desde a assistência imediata das necessidades básicas (“quem tem fome, tem pressa) àquelas que como dito popular “ensinam a pessoa a pescar”. Foi grande a mobilização de organizações como a CUFA, G10 Favelas, Gerando Falcões, Ação da Cidadania, Instituições Religiosas dos mais variados credos e sociedade civil em prol da arrecadação de alimentos, distribuição de botijões de gás e cartões de alimentação para os moradores das favelas brasileiras. Houve também um movimento de incentivo à compra dentro das próprias comunidades. Estimulava-se que os moradores comprassem itens de alimentação, por exemplo, nos mercadinhos dos arredores, sem a necessidade de “descer para o asfalto”. Esta medida fortaleceu os pequenos empreendedores da região, impedindo sua quebra. Outra prática já bastante comum e amplamente difundida mesmo em tempos pré-pandêmicos era a “economia circular” ou o famoso “nóix por nóix” que durante esses dias sombrios se intensificou, mantendo muitos negócios ativos e fortalecendo pessoas.

[1]A partir desta perspectiva, vê-se a favela como uma potência onde se encontram empreendedores natos, e que é necessário que se mude a visão sobre estes territórios, promovendo políticas públicas e ações sociais que visem desenvolver habilidades, agregar competências, estimular a criatividade e gerar oportunidades (mas isto é papo pra outra matéria, rsrs)



Foto: arquivo pessoal Mulheres da Parada

Estabeleceram-se parcerias das mais variadas. Também foram criadas novas modalidades de negócio ao identificarem-se necessidades bastante específicas. É o caso do Coletivo Mulheres da Parada que atua em São Gonçalo, município fluminense, por exemplo. Visando mitigar os efeitos da fome entre os moradores, o coletivo criou um mercadinho cujo sistema permite que as pessoas acessem gratuitamente aquilo que é necessário respeitando a sua realidade alimentar e considerando o número de integrantes da casa. Desse modo, além de matar a fome, é promovido também a idéia de dignidade humana, devolvendo às pessoas a gerência de suas vidas e não apenas dando-lhes indiscriminadamente sem considerar suas especificidades o que julga-se ser necessário a sua subsistência. O grupo também organizou uma horta comunitária. Outro exemplo potente é o de Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, onde aconteceu a distribuição de mais de 800mil máscaras confeccionadas por mulheres em situação de vulnerabilidade social[1]. Este projeto denominou-se “Heróis usam máscaras” e contou com a articulação, participação e apoio do G10 Favelas e da Associação Mulheres de Paraisópolis. Esta ação somada a outras já reconhecidas ao combate ao vírus, contribuiu para que a comunidade tivesse um desempenho contra os avanços do coronavírus melhor do que o da cidade de São Paulo. É de lá também a ação encabeçada pelo “Mãos de Maria”, um grupo de empreendedoras que qualifica mulheres vítimas de violência doméstica a montarem seus próprios negócios e que contribuem cozinhando os alimentos que são distribuídos em marmitas para os moradores da região.


Diante disto, ficam algumas lições:

1) Identifique as necessidades a sua volta e pense em maneira de respondê-las

2) Você não precisa necessariamente de dinheiro, precisa de disposição e parcerias

3) Seu negócio deve partir da sua realidade, ele conta a sua história e não o contrário

4) Sua iniciativa pode parecer pequena aos seus olhos, mas pode impactar a vida de muitos. Acredite em você

[1] Costurando Sonhos é um projeto de costura, cujo público alvo são mulheres que sofreram violência doméstica. O projeto atuou durante a pandemia emprestando máquinas para que elas fizessem uma espécie de home office, costurando em casa e prestando serviço para empresas de fora da comunidade nesse período.



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